RIO - Othon Bastos levou o mesmo susto que eu, você e todos
nós ao descobrir a mais recente novidade da trama de “Império”. Ele não
tinha ideia, quando foi chamado para interpretar o mordomo Silviano na
novela das 21h, que seu personagem seria o ex-marido picareta de Maria
Marta (Lilia Cabral). Não que o ator esteja reclamando: faz parte das
dores e delícias de estar numa obra aberta como uma novela. Mas a
história se desenrolou de forma bem diferente do que ele imaginava.
— Se eu soubesse, teria feito diferente. Acho que não teria
essa ligação toda com a Maria Marta, desse jeito. Quando recebi a
sinopse, era só Silviano, não tinha nem sobrenome. Dizia assim: 65 anos,
mordomo da casa de Maria Marta, “não é gay”, isso bem grifado. E só.
Não falava de onde eu vinha, qual seria meu futuro. Para me embasar, eu
criei uma história junto com a Lilia, da minha cabeça: de que eu havia
trabalhado na casa do pai dela e, quando ela se casou, me pediu para ir
trabalhar lá. Conhecia ela desde pequena, a gente tinha uma ligação de
empregado e patroa.
Desde a estreia de “Império”, a química entre os personagens
de Othon e Lilia foi um dos destaques da novela. Com uma relação de
amizade que ultrapassava os papéis de mordomo e patroa, a dupla acabou
tornando essencial uma peça que, talvez, nas mãos de outro ator, pudesse
ser apenas um coadjuvante. Tanto que quando Othon precisou ficar duas
semanas afastado das gravações — ele foi internado em setembro para
tratar uma erisipela —, o autor Aguinaldo Silva teve que sair com uma
solução criativa para Silviano e não apenas sumir com o mordomo.
— Quando o Rogério (Gomes, diretor de núcleo)
me chamou, disse que estava em dúvida entre dois papéis para mim, que
“poderiam ficar muito bons dentro da história”. Mas não acredito que ele
soubesse que eu ia ser o ex-marido. Tenho a impressão que à proporção
que a novela foi avançando e o Aguinaldo foi vendo que tudo corria bem
entre a Marta e o Silviano, que tinha química, carinho, talvez tenha
vindo aí o insight de colocar essa bomba no final. O que acho lindo no Aguinaldo, e eu já tinha feito “Roque Santeiro” com ele 700 anos atrás (risos), é que ele não é um autor óbvio. Ele dá a volta e pega você de surpresa.
Aos 81 anos, e com uma carreira que inclui mais de 60
filmes, mais de 40 novelas e outras dezenas de peças de teatro, é
difícil de acreditar, mas Othon nunca havia interpretado um mordomo
antes.
— Em 62 anos, é o primeiro da minha carreira! Já fui
advogado, padre, assassino, cangaceiro, até estuprador eu já fui! Então,
quando o Papinha me ofereceu, falei: “Pelo amor de Deus, quero esse!” —
conta, empolgado.
Cheio de disposição, ele foi ao cinema buscar inspiração para criar Silviano:
— Comecei a ver filmes de tudo que era tipo de mordomo. Vi “O mordomo da Casa Branca”, vi aquele do mordomo do Moreira Salles (“Santiago”),
um em que o Anthony Hopkins faz um mordomo apaixonado. Vi o John
Gielgud, um dos maiores atores shakespeareanos de todos os tempos, fazer
um mordomo em “Arthur, o milionário”. Vi James Mason, Peter Sellers,
vários atores! Cada um dava uma linha, alguns mais de comédia, outros
mais vampirescos — explica.
O estilo criado por Othon logo impactou os espectadores. Um
“lorde inglês” em meio à bagunçada família de José Alfredo (Alexandre
Nero), ele muitas vezes serviu de alívio cômico com os apelidos e o
jeito de lidar com os patrões. A dedicação na preparação, ele diz, tem
um pouco a ver com a formação de sua geração, de atores que “amam
violentamente esta profissão”.
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—
As coisas mudaram muito, assustadoramente. Eu venho de uma época em que
a gente fazia TV ao vivo no “Grande Teatro Tupi”. Gente como Sergio
Britto, Fernanda Montenegro, Nathalia Timberg, Francisco Cuoco, Ítalo
Rossi... Era fantástico! Uma escola. Essa é a diferença dos atores do
passado. Não quero me vangloriar, não. Mas em cena você vê a diferença
do ator que teve uma experiência dessa. Hoje se perdeu um pouco desse
amor pela profissão que tínhamos. O pessoal já entra na televisão
pensando em sucesso. E o sucesso é tão fútil! Você acha que hoje é
maravilhoso e amanhã não é mais. Você acaba uma novela, amanhã entra
outra e as pessoas já esqueceram você. É uma roda-viva.
Embora a frase acima possa dar essa impressão, Othon não tem
nada de convencido. Teria até direito de ser, já que tem no currículo
alguns dos filmes e novelas mais importantes do cinema e da dramaturgia
brasileiros. Mas prefere olhar para frente. No fim da entrevista, pede
que o texto “não seja muito sobre ele, não, e mais sobre os ótimos
colegas com quem trabalha”. Aliás, entrevistá-lo não é fácil. Ele não
gosta de falar da própria carreira, recusa convites para programas de
TV, e não tem a menor intenção de escrever uma biografia, por exemplo. O
título de “um dos atores mais importantes do Brasil”? Nem liga.
— As pessoas às vezes me olham assim, acham que vou cantar
de galo nos lugares. Mas isso não me interessa. Quem é apegado demais ao
passado não tem a glória do futuro. Vou ficar vivendo do que eu já fiz?
Está lá feito, para as pessoas verem. O que me interessa agora é o que
vem pela frente, jogar as experiências nos novos trabalhos.
Dentro dessa filosofia, Othon nunca parou de trabalhar. E nem pretende.
— Acho que você tem que continuar trabalhando sempre. Só que
está cada vez mais difícil para atores da minha idade. Porque hoje você
é avô com 50 anos na televisão, né? Daqui a pouco é bisavô com
60. Você repare, essa coisa da aparência, de ter que ser bonito,
gostoso, gostosa, é cada vez mais forte. E a gente vai ficando para
trás.
Apesar de sua experiência mais extensa ser na TV e no
cinema, o grande xodó do ator é mesmo o teatro. Nascido em Tucano, na
Bahia, ele diz que começou nos palcos “por acaso”, no Rio de Janeiro,
onde veio morar aos 6 anos.
— Nunca tive aquela coisa de “no chiqueirinho já me segurava
e fazia cenas para meu pai e a minha mãe”. Aquela coisa de “desde
criança já pensava que seria ator”. Isso é uma loucura. Eu gostava de
teatro, gostava de assistir quando era adolescente. E acabei entrando
para um grupo de teatro por acaso.
'OS IMIGRANTES': UMA NOVELA MARCANTE
Durante
muito tempo Othon viveu só de teatro: viajava com espetáculos pelo
Brasil, montou uma companhia com a mulher, a atriz Martha Overbeck, com
quem está casado há 49 anos... Mas lamenta que hoje em dia isso não seja
mais possível.
— Hoje ninguém consegue fazer teatro direito. A TV engoliu
esse tempo. Ela não vai soltá-lo terça, quarta, quinta e sexta às 19h
para você fazer teatro. Então você se limita. Mas ninguém que ama o
teatro deixa de fazer completamente.
Mas a TV e o cinema também marcaram de forma positiva sua
carreira. Ele se lembra com carinho de “Éramos seis” (1994), de Silvio
de Abreu e Rubens Ewald Filho, e de “Os imigrantes” (1981), de Benedito
Ruy Barbosa.
— Acho que foi a primeira grande novela do Benedito. Era
extraordinária. Eram três protagonistas: eu era o português e havia um
italiano e um espanhol. A trama falava das três imigrações que marcaram a
sociedade brasileira. E tem uma história ótima do Benedito: no primeiro
capítulo, chegava um navio com 1200 imigrantes. Aí, anos depois, um
jornalista perguntou a ele: “Agora todas as suas novelas tem um
imigrante italiano. Por que essa mania?”. E ele, com a maior
tranquilidade, respondeu: “Você viu uma novela chamada ‘Os imigrantes’?
Lembra que chegou um navio com 1200 imigrantes? Então eu posso fazer
1200 histórias”. Essa resposta é um primor!
Talvez o trabalho mais marcante de Othon, o cangaceiro
Corisco do filme “Deus e o diabo na terra do sol” (1964), de Glauber
Rocha, ensinou o ator uma lição valiosa sobre a profissão:
— Uma das coisas mais importantes é o ator saber o que quer
fazer. E como fazer. Depois de “Deus e o diabo” eu passei quatro anos
sem aceitar um roteiro. Porque só me mandavam cangaceiro. Até que me
chamaram para fazer “Capitu” (1968). Ali minha carreira
começou. Eu fui fazendo como eu queria. O “Deus e o diabo” me deu essa
projeção, essa autonomia. Mas é preciso saber que você não está jogando
fora oportunidades. Está sabendo escolher as que aparecem — ensina.
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